“A nossa vida é um esboço sem quadro.”
— Milan Kundera. A insustentável leveza do ser. 1983. Parte 1, Cap. 3.
“O preço que os homens pagam pela multiplicação do seu poder é a sua alienação daquilo sobre o que exercem o poder.”
— Theodor W. Adorno e Max Horkheimer. Conceito de Iluminismo. 1944.

A arte da nudez segundo o jihadista

O que é isto? Não é, certamente, o nú parisiense de 1900 ou aquele dos corpos gregos ou as curvas indianas que mesclam deuses e carnes. É outra coisa: quando o jihadista vence uma batalha e invade uma cidade ou território, sua primeira ação é o desnudar, a restauração do deserto, sua nudez, seu vazio, seu nada de dunas e ergs: são declaradas proibidas a mulher e sua pele, os mausoléus, as estátuas, os desenhos, as curvas, as arquiteturas, as cruzes, as igrejas e outros templos, as mesquitas excessivamente ornamentadas, os retratos, as obras de arte, o vinho e a música e as roupas justas ou belas demais. Vimos isso com a conquista do norte do Mali pela Al Qaeda do Maghreb e isso é confirmado mais uma vez, todas as vezes, com o último comunicado do EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante) logo após sua conquista de Mossoul, no Iraque. O comunicado está disponível na internet.

É então a arte da nudez segundo o jihadista: deixar o mundo nu, o saarizar, reduzi-lo à sua expressão absolutamente fantasmagórica do deserto da revelação, esvaziar os lugares e os deixar predispostos, pelo seu vazio, a retomar o eco das palavras da divindade. A arte da nudez segundo o jihadista é consagrada ao mundo, o véu à mulher. Oculta-se a mulher para desnudar a rocha e o mineral. Mascara-se o sexo para desvelar a duna. Uma inversão fascinante da libido ou do senso estético: o deserto toma o peso de um sujeito desejado e a mulher o sentido de um objeto recusado. A arte da nudez é, segundo o jihadista, violenta, aos golpes de sabres e amputações, de recusas e negações, de proibições. É uma pintura pela negação, um retrato do céu (vazio) feito sobre a terra aplainada. O jihadista desenha a terra como um céu: vazia, sem fim, absolutamente nua, arruinada e levando à Deus por todos os caminhos imaginados. A terra é então desenhada como um deserto, velho reflexo dos céus que pode nos atropelar e que pode matar pela miragem e falta d’água e mais do que infinita.

A arte da nudez segundo o jihadista é imperiosa. É o traçado do califado, a restauração do momento zero, a purificação pela depuração. É uma obsessão estética, porém a golpes de morte e violência, é um diabo íntimo, uma projeção da alma morta sobre uma natureza morta, um desejo louco, uma abnegação, uma supressão de si pela supressão do outro e de seus rastros, um forno crematório da diferença, uma barra de sabão a partir de milhões de cinzas. Um contrapeso? Sim: à exuberância do paraíso (vasta e profunda lembrança dos primeiros jardins persas) contrapomos a nudez do presente. Esvazia-se o mundo, aquele lá, para preencher e decorar o outro. Reduz-se até não ser mais que areia e um tapete. Nega-se o corpo pela negação da sua influência sobre o mundo: esvazia-se os objetos pois eles esvaziam o sujeito. Doença abissal. A arte da nudez segundo o jihadista é um imperativo. O mundo se alonga, se expõe, se desnuda, não deve mais se mover ou respirar. É então que o jihadista o fixa e começa a redesenhá-lo segundo suas convicções: o esvazia, o reduz aos traçados dos primeiros dias da criação, o desembaraça de todos os floreios e não poupa nada que não a caligrafia monstruosa: nada que supere o grão de areia ou que preocupe à duna: nem música, nem cigarros, nem curvas, nem alegria, nem desejos. A arte da nudez segundo o jihadista quer a terra inteira, estende-se adiante, ressurge um pouco em todo canto como buracos negros e surpreende por sua constância e vontade de redesenhar países e gentes e vilas e vidas.

Com uma única regra: um livro, um Deus, uma duna, um tapete, um minarete, uma verdade e nenhuma outra. Tudo que supera é ilícito e proibido. A arte da nudez segundo o jihadista é um paradoxo final: sonha suprimir-se a si mesmo após a conquista da obra. Não restará então mais que o vazio, reflexo da glória da Divindade enfim restaurada.

“The most influential books are always those that are not read.”
— Michael Young, author of Rise of the meritocracy
“The sinew and heart of man seem to be drawn out, and we are become timorous, desponding whimperers. We are afraid of truth, afraid of fortune, afraid of death, and afraid of each other. Our age yields no great and perfect persons. We want men and women who shall renovate life and our social state, but we see that most natures are insolvent, cannot satisfy their own wants, have an ambition out of all proportion to their practical force, and do lean and beg day and night continually. Our housekeeping is mendicant, our arts, our occupations, our marriages, our religion, we have not chosen, but society has chosen for us. We are parlour soldiers. We shun the rugged battle of fate, where strength is born.”
— Ralph Waldo Emerson. Self-reliance. 1847
““the foolish face of praise,” the forced smile which we put on in company where we do not feel at ease in answer to conversation which does not interest us. The muscles, not spontaneously moved, but moved by a low usurping wilfulness, grow tight about the outline of the face with the most disagreeable sensation.”
— Ralph Waldo Emerson. Self-reliance. 1847
“If the rich could hire the poor to die for them, the poor would make a very nice living.”
— Yiddish Proverb
“L’argent qu’on possède est l’instrument de la liberté; celui qu’on pourchasse est celui de la servitude.”
— Jean-Jacques Rousseau. Confessions. 1782.
“Punctuation, is? fun!”
— Daniel Keyes. Flowers for Algernon.
“Ne te quæsiveris extra.”
— Ralph Waldo Emerson. Self-reliance. 1847